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sábado, 30 de abril de 2011

Enxurrada de sensações e processamento sensorial

É geralmente mais difícil para uma criança com autismo conseguir ouvir o que o professor fala quando outras crianças estão fazendo barulho. Estudos analisando a eletricidade no cérebro de pessoas com autismo mostram que mesmo quando elas estão tentando ignorar certos aspectos de seu ambiente (como o barulho em uma sala de aula), seus cérebros respondem a estas informações do mesmo jeito que respondem à informação que a criança está tentando prestar atenção (como a voz do professor).
Isto significa que muitos dos sinais que as células cerebrais estão enviando umas para as outras talvez venham acompanhados de “barulho” ou “ruído”, como a estática em um sinal de rádio. Esta é uma das explicações do porquê crianças com autismo se tornariam hiper-estimuladas por informações sensoriais e teriam então dificuldade para escolher entre duas fontes diferentes de informação.
O problema para muitas crianças com autismo parece ser o de “filtragem”, isto é, elas são menos capazes do que as crianças típicas de filtrar e descartar a informação sensorial que é irrelevante para o que elas estão tentando prestar atenção. Consequentemente, os cérebros daqueles com autismo dão igual valor para todos os estímulos recebidos, causando um bombardeio de informação sensorial com o qual a criança tem de lidar. Os cérebros de crianças típicas aprendem a filtrar e descartar os estímulos irrelevantes durante os primeiros anos de vida, o que possibilita que, ao começarem a frequentar a escola, consigam focar sua atenção na atividade pedida pelo professor. É muito difícil para um grande número de crianças com autismo conseguir aprender em um ambiente onde existem muitas informações sensoriais ao mesmo tempo (incluindo-se barulhos, toques, cheiros, estímulos visuais, etc.), como acontece em uma sala de aula.
Crianças com autismo estão absorvendo uma quantidade enorme de informações o tempo todo. Em algum ponto elas terão que escolher entre reter ou descartar essas informações. Estudos demonstram que, em comparação com pessoas neurotípicas, as pessoas com autismo tendem a retardar este processo de “escolha”. Uma analogia para este processo seria como andar pelos corredores de um supermercado e colocar em seu carrinho uma unidade de cada item a venda para apenas depois, na chegada ao caixa, descartar o que você não quer comprar. Isto causa uma demora no processamento de estímulos. Estudos com tecnologias que permitem ver quais partes do cérebro estão sendo utilizadas durante uma tarefa confirmam que este é o fenômeno acontecendo dentro do cérebro de pessoas com autismo. Há mais atividade nas regiões do cérebro designadas para o processamento de baixa ordem (como o andar pelos corredores do supermercado) do que em regiões cerebrais especializadas para o processamento de alta ordem (passar pelo caixa e levar para casa os itens que constavam na sua lista de compras).
Talvez isto explique por que as crianças com autismo frequentemente apresentam dificuldades em áreas de processamento de alta ordem (exemplos: atenção, organização, linguagem, etc.). Elas passariam tanto tempo tentando lidar com a recepção de informação sensorial (baixa ordem) que acabariam não tendo tempo para praticar o processamento de alta ordem que outras crianças da mesma idade praticam. Desta forma, o cérebro da criança com autismo começaria a se desenvolver de forma diferenciada em relação ao cérebro de uma pessoa com desenvolvimento típico. Há sinais de que este estilo de processamento da informação já se encontre presente na época do nascimento da criança, mesmo que os comportamentos autísticos não sejam identificados até os cerca de 18 a 24 meses de idade.
Especialistas dão a este estilo de processamento (que limita-se em parte ao processamento de baixa ordem) o nome de “ fraca coerência central”. Se nós vemos um quadro, há uma grande quantidade de detalhes, cores, formas e tamanhos. Nós conseguimos reunir estas informações para compreender que é um quadro. Podemos ver o quadro como um todo. Isso é chamado “impulso de coerência central” (significa entender a essência). Se ouvirmos os sinos de uma igreja e vermos várias pessoas com roupas elegantes, jogando confete em um casal fora da igreja, conseguimos concluir que trata-se de um casamento. Uma pessoa com distúrbios do espectro do autismo irá apenas concentrar-se nos sinos da igreja, ou nos pedaços de papel voando, sem conseguir identificar que é um casamento. 
            Entender a essência significa que podemos retirar muitas informações de uma situação para entendê-la, usar o contexto e relacioná-lo a detalhes para encontrar o significado, e ver uma figura ou situação como um todo.
            A fraca coerência central leva a pessoa a não entender o significado geral quando está diante dos detalhes, e a se preocupar com eles e não com o significado geral (ou essência). Concentram-se em uma pequena parte da figura ou situação; ou em determinada experiência sensorial como o aroma, o gosto, o som, a visão ou a textura, e acham difícil “ver” uma figura inteira e entendê-la. Quando esta pessoa está diante de um objeto, ao invés de vê-lo como um todo, irá se concentrar em partes individuais. Uma criança pode ver uma casa de bonecas como várias portas, janelas e paredes ao invés de vê-las como uma casa inteira em miniatura.
            Pessoas com distúrbios do espectro do autismo costumam concentrarem-se em ruídos, tato, sensações, o que pode levá-las a preocupações ou compulsões, ou excesso de sensibilidade a certas experiências sensoriais. Algumas crianças ficam muito inquietas ao ouvir ruídos altos, facilmente tolerados pela maioria das crianças. Não se sabe ao certo por que isso acontece. Talvez seja por causa da dificuldade em atribuir significado social a suas experiências perceptivas, ou talvez esteja relacionado à maneira como seu cérebro vivencia as percepções.
            É por causa desta desordem no processamento sensorial que, para muitas pessoas com autismo, pode ser mais fácil aprender e se desenvolver num ambiente simplificado e com poucas distrações do que num ambiente que tenha muitos estímulos sensoriais.  

Referências:

http://www.inspiradospeloautismo.com.br/

WILLIAMS, CHRIS; WRIGHT, BARRY. Convivendo com autismo e síndrome de Asperger. M. Books, 2008.

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