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terça-feira, 3 de maio de 2011

Um ambiente otimizado: o quarto de brincar

          Ambientes físicos com grandes quantidades de estimulação sensorial (painéis com cores fortes, barulho de fundo, etc.) aumentam o “barulho” num sistema sensorial já sobrecarregado, tornando extremamente difícil qualquer nova aprendizagem – como tentar aprender japonês dentro de um barulhento shopping center. Devido à presença de outras crianças e do tamanho do espaço físico necessário para abrigá-las, a sala de aula convencional é altamente limitada em termos de poder atender às necessidades das crianças com autismo. Até a iluminação por meio de lâmpadas fluorescentes, tão comum em salas de aula, tem sido apontada em estudos científicos como sendo um fator que afeta o comportamento de crianças com autismo. Infelizmente, estas considerações relativas ao ambiente da criança são geralmente desprezadas e têm sua importância desvalorizada quando programas educacionais são oferecidos para crianças com autismo, ou ficam além dos limites físicos e materiais das escolas convencionais.
Pesquisas envolvendo pessoas com autismo, desde estudos sobre como as células cerebrais conectam-se até estudos sobre como as pessoas atuam em testes psicológicos, nos oferecem a imagem de um mundo fragmentado, sobrecarregado e tomado por “barulho” para aqueles com autismo. Esta noção é confirmada por relatos autobiográficos de pessoas com autismo. A compreensão do mundo fragmentado e sobrecarregado de uma criança com autismo nos leva a ver a importância que tem o ambiente ao seu redor na elaboração dos programas educacionais e nos tratamentos que a ela são oferecidos. Também explica a razão das crianças com autismo procurarem ordem e previsibilidade em seus ambientes físicos.
Para muitas crianças com autismo, a criação de um ambiente construído especialmente para elas pode melhorar em muito o seu desenvolvimento e aprendizagem.
O ideal é escolher um quarto silencioso, longe das principais atividades da casa ou das distrações vindas de fora da casa. Pode ser o próprio quarto da criança ou um quarto extra.
Se for o quarto da criança, é importante pensar em como diminuir as distrações neste quarto. Talvez seja necessário retirar alguns dos móveis ou ter certeza de que tudo pode ser guardado em um armário ou despensa durante as horas de atividades no quarto.
O quarto de brincar costuma ter em média cerca de 4m X 4m, mas estas medidas não são indispensáveis. Um quarto bem menor pode funcionar bem, especialmente para crianças mais novas. Quartos maiores também podem funcionar, mas deve-se levar em conta que um quarto muito grande pode tornar mais difícil a tarefa de se manter a
atenção de uma criança.

O quarto de brincar
O quarto deve ter poucas distrações sensoriais. Crianças com autismo tendem a apresentar dificuldades em filtrar e descartar informações sensoriais, o que pode levá-las a se distrair pelos vários sons, imagens, texturas e cheiros. Quanto mais simples for o ambiente sensorial de uma criança, mais fácil será para ela focar em interações sociais e no aprendizado de novas habilidades.
            Devido à experiência de bombardeamento sensorial que crianças com autismo frequentemente vivenciam, elas costumam procurar oportunidades para que se sintam em controle de seu ambiente. Quando uma criança se sente em controle da situação, também se torna mais fácil para ela prestar atenção nas interações e aprendizados sociais.
O quarto de brincar é especificamente estruturado para que nele haja o mínimo possível de limites. É o quarto do “sim”. O “não” pode estar presente em alguns momentos em que limites possam ser necessários. Quanto mais controle a criança tiver, menos controle ela tentará obter e mais fácil será ela se engajar em atividades interativas.
O ideal seria retirar todos os móveis, exceto uma mesa e uma (ou duas) cadeiras, de tamanho apropriado para a criança. Se o quarto escolhido for o dormitório da criança e não tiver para onde remover os móveis, é importante que todas as superfícies dos móveis fiquem livres de objetos. As paredes do quarto devem ser pintadas com uma cor neutra. Cores fortes, contrastes ou estampas na parede podem ser elementos de grande distração para crianças com autismo. O mesmo vale para o piso do quarto.
É importante que o piso seja confortável. Geralmente utiliza-se piso de vinil sobre uma forração de carpete para que se tenha uma superfície macia e fácil de limpar durante o trabalho. Há também outras opções de pisos macios, como aqueles utilizados em academias de ginástica. Carpete pode funcionar também, principalmente se a criança não costuma derramar líquidos no chão.
Recomenda-se o uso de lâmpadas incandescentes neste quarto. Lâmpadas fluorescentes piscam (de forma imperceptível para muitas pessoas), mas as crianças com autismo frequentemente percebem e distraem-se com isto.
Neste ambiente, não será necessário impor tantos limites para a criança, pois ela estará em um ambiente seguro onde poderá fazer quase tudo, sentindo-se então em controle da situação. O ambiente também oferecerá para a criança a previsibilidade e segurança - um ambiente conhecido, onde apenas uma pessoa por vez interagirá com ela.
            Móveis e Equipamentos
Os móveis e equipamentos a serem utilizados dependem da idade e necessidades sensoriais da criança/adulto. Para uma criança mais nova que gosta de correr, pular ou escalar, aconselha-se que encontrar uma maneira segura de oferecer estas atividades dentro do quarto. Um jeito de fazer isso é retirar toda a mobília desnecessária do quarto, mantendo apenas uma pequena mesa e uma cadeira para as refeições ou atividades como desenho, etc. Podem ser providenciados equipamentos como um pequeno escorregador ou uma estrutura para escalar, uma pequena cama elástica ou duas grandes bolas de fisioterapia. Para uma criança menos ativa ou mais velha, pode ser providenciada uma mesa maior e um lugar confortável para se sentar.
Recomenda-se o uso de um espelho de cerca de 1,60 m (altura) por 1,50 m (largura) colado de forma segura na parede a partir do chão ou rodapé. A principal função do espelho no quarto é estimular e facilitar o contato visual com a criança. O espelho também contribui para o aprendizado de consciência corporal. Outra função seria a de facilitar a observação e gravação das sessões devido à multiplicação dos ângulos de visão.
             Brinquedos
            O quarto deve ser livre de qualquer brinquedo eletrônico, incluindo vídeo games, TVs, computadores ou qualquer outro brinquedo que utilize pilhas. Estes brinquedos ou equipamentos podem distrair e absorver uma grande parte da atenção das crianças.
            A escolha dos brinquedos depende dos interesses da criança. O principal foco no quarto está na interação social. É interessante escolher brinquedos que possam ser utilizados de diversas maneiras. Por exemplo, brinquedos de pelúcia, fantoches, fantasias, instrumentos musicais e blocos de montar. Equipamentos de esportes são frequentemente úteis, como bolas, cestas de basquete, gol, pinos de boliche ou pequenas raquetes.
Mesmo que a criança ainda não esteja desenhando ou escrevendo, mantenha papel, canetas, giz e lápis disponíveis no quarto para poder desenhar figuras, escrever palavras e começar a encorajar sua criança a fazer o mesmo. Se a criança já for capaz de participar em jogos mais estruturados (ex: jogos de tabuleiros ou cartas), pode-se ter alguns destes no quarto também.
É importante incluir no quarto vários objetos que a criança costuma utilizar durante comportamentos de isolamento. Se ela gostar de segurar pedaços de fios, tenha alguns tipos de fios no quarto. Se a criança gostar de alinhar carros de miniatura, tenha alguns destes disponíveis (não mais do que 10). Coloque todos estes brinquedos em uma ou duas prateleiras a uma altura de cerca de 1,75m. A intenção é que a prateleira esteja alta o suficiente para que a criança precise de ajuda para alcançar os brinquedos, mas não alta de modo que não consiga ver quais são os brinquedos lá disponíveis. Para crianças mais velhas e mais altas, a altura da prateleira não é tão importante.

            No quarto de brincar, são realizadas sessões 1:1 com a criança (um facilitador : uma criança). Estas sessões podem ter a duração de uma hora, duas horas ou mais, dependendo de cada criança.
            Os princípios do Son Rise podem ser aplicados em qualquer lugar, não apenas no quarto de brincar, mas o tempo todo. Aplicar os princípios dentro do quarto otimiza o desempenho da criança, porque nele há poucas distrações sensoriais e a criança tem o controle. Portanto, não há competição de informações sensoriais (facilitador x outros estímulos); e a criança não precisará tentar obter o controle, pois ela já terá o controle do quarto, já que ele é estruturado especialmente para ela.

Referência e mais informações:



Um comentário:

  1. Boa tarde. Estou orientando uma aluna que está fazendo seu TCC de um quarto para crianças com autismo. E ela gostou muito do seu blog, mas para colocar as informações no trabalho dela, eu tenho que fazer a citação da referência. Você poderia me dar seu nome completo? Se preferir contactar-me por e-mail: bartirabc@gmail.com ou bcunha@fbv.edu.br

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